quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Dia de circo

Hoje tem palhaçada? Tem, sim, senhor. Hoje tem marmelada? Tem, sim, senhor. E o palhaço, o que é? É ladrão de mulher! E foi assim que passei minha quarta-feira. Porque descobri que a pior espécie de ser humano não está nos semáforos expondo crianças recém-nascidas ao sol enquanto pede dinheiro, tampouco se encontra nas cidades do interior do interior do interior beijando criancinhas e comendo buchadas a fim de receber um par de votos. Não. O pior da humanidade está no pronto-socorro mais próximo de você, meu irmão. E foi lá no Santa Catarina que cheguei a esta brilhante conclusão. Quem não chora, não mama, e todos lá pareciam levar tal ditado ao pé da letra. Funcionava assim: chorou, berrou, simulou desmaio? Avance duas casas (ou melhor: fure a file e deixe dois idiotas para trás). Para ser sincera, eu adorei - sem ironias - assistir àquele festival de carões, cabeleiras ao ar, dignidades no ralo. Parecia meio de novela mexicana, quando os mocinhos só se fodem e são fodidos. Eu gargalhava, minha mãe me cutucava, e pessoas que chegavam mancando e chorando iam embora n-o-r-m-a-i-s, como se nada tivesse acontecido. Eu, mancando? Imagiiiiiiiiiiiina!
Enquanto isso, no Reino das Pessoas com Noção, mantive a pose, vomitei no banheirinho - sem alardear -, e ainda consegui um rotavírus para chamar de meu.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Sou um transformer

Em questão de segundos, eu deixo de ser a Moranguinho e me transformo em um caminhão de lixo.

No peito

Eu tenho um buraco no peito. Uma espécie de vazio que dói. Uma estupidez semeada. Pela milésima vez - e isso já soa repetitivo -, cultuei a desilusão. O processo é simples e eficaz. Basta fazer tudo errado, mostrar seus piores lados e sentir que, não importa o que seja feito, você sempre estará atrapalhando, importunando.
Eu sou um buraco.

domingo, 16 de setembro de 2007

Desistir

"Minha verdade espantada é que eu sempre estive só. Eu e minha liberdade que não sei usar. Grande responsabilidade de solidão. Quem não é perdido não conhece a liberdade e não a ama. Quanto a mim, assumo minha solidão. Que às vezes se extasia como diante de fogos de artifício. Sou só e tenho que viver uma certa glória intíma que na solidão pode se tornar dor. E a dor silêncio. Guardo o seu nome em silêncio. Preciso de segredos para viver." (Clarice Lispector, "Água Viva")
Nome guardado em (ou no?) silêncio. Segredos para viver. Porque, quando o medo vence e você estraga tudo, esse passa ser o único caminho digno. E eu, que nunca fui fã da dignidade, ofereço a minha agora. Toma, fica com ela. Nunca precisei disso. Sou adepta - pela milésima vez - da vertente dos que não enxergam nada de bom na dignidade. Ela nunca encheu barriga, nunca soube amar. Se ofereço a minha e passo a utilizá-la com você, só o faço por respeito. Por saber que, infelizmente, é isso o que você espera de mim. Minha triste, solitária e respeitosa dignidade.
Nunca me importei com os outros, e vivi nesse paradoxo todos os meus erros. Sempre cometi os mais grotescos erros partindo disso. Para mim, os outros não tinham nada a ver com eles. Mas, na minhã seguinte, era neles que eu pensava. Nos outros, e não nos erros. Não posso entregar esse texto, não posso querer partilhar isso. Mais uma vez, minha triste, solitária e respeitosa dignidade que engloba desde o "não seja infantil" até o "saiba o momento de parar". Parece brincadeira. Piada sem graça, mesmo. Sempre agi como uma criança impulsiva. E largar isso é pisar num terreno novo. Muito novo. Já optei. Já desisti. Ofereço minha dignidade, e deixo a beleza daquilo que eu poderia ser (sim, eu vejo beleza naquilo) para a lembrança de tudo que não pude demonstrar. Mas vou parar por aqui. Não quero acreditar que a discrição seja a melhor coisa que uma mulher pode apresentar. Lutei muito pelo oposto. Levantei todas as bandeiras. E continuei sozinha. Eu, minhas dores, minha certeza de estar optando pelo certo. Sempre acreditei que "ser mulher" deveria ser algo muito mais profundo do que a mera discrição. Sempre pequei pelo excesso. E nada.
Pois bem, pela primeira vez eu prometo parar. Já parei e desisti muitas vezes. Mas sempre sabia, lá no fundo, que não havia mais sentimento em mim. Desisti por saber que o copo estava vazio, e que eu ainda sentia sede. Eu e meus clichês. Agora, não. Desisto sabendo que as coisas poderiam ser diferentes. Desisto gostando, se é que se pode dar esse nome às coisas que sinto. Sem mensagens no celular, sem e-mails impertinentes, sem grandes gestos impensados. Fim. Dignidade não procurada. E dói demais ser digna. Mas esta é a minha promessa. Por respeito a você. Não a mim.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Estupidez

Não. Não posso escrever sobre coisas bonitas se não tenho conseguido tempo/ juízo para vivê-las. Desculpe. De coração. Se pudesse, usaria todas as cores do mundo para dizer que estou bem, lúcida, calma. Mas seria uma mentira infantil, e minhas mentiras são sempre mais adultas. Só sei ser infantil sem mentir. Mas digo que deveria ser crime. Inafiançável. As pessoas teriam a obrigação de respeitar certos limites de impulsividade. Se ultrapassassem, seriam presas. Eu, por exemplo, estaria mofando atrás das grades a uma hora dessas. Prisão perpétua. E isso não tem nada a ver com arrependimentos, não. Só acho que meu ritmo é esquizofrênico. E estou me tranformando naquele tipo de gente - medo - que não filtra o que diz, faz, sente, pensa.
Para ser sincera, dá até vontade de voltar a amargar. Afinal, os amargos são, no mínimo dos mínimos, muito mais bem-resolvidos. E - vejam só! - são infantis somente quando mentem.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Terapia

Nesta quinta-feira, a bruxa que não foi convidada para a festa da Bela Adormecida agiu. E venceu a fadinha do bem. Mas ainda existem os cem anos de anistia. E ainda encontrarei, sim, o meu perdão. Mas não há como explicar tudo isso. Leiam a historinha e sejam felizes. Quem me contou foi meu psiquiatra-psicólogo-salvador que, num ataque de bom senso supremo, chegou à conclusão de que tenho todas essas personagens dentro de mim. E a bruxa má nada mais é que aquela que prega o autoboicote.
Entendam: meu pai sempre me disse que, a cada tentativa, o mínimo que temos é o "não". E eu, pra lá de burra, sempre considerei o tal do "não" o único território viável. Enfim...

domingo, 19 de agosto de 2007

E o fel está se dissolvendo...

Mas estou brava, meu povo. Estou ariana-muito-ariana. Estou o Medo da Mulher Brasileira. E tenho deixado o Roberto Carlos no repeat, só pra ver no que dá. Afinal, ele também é ariano, tem TOC e acredita no amor. O que me resta? Preencher o terceiro quesito e ir à forra.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Questão de escolha

Não, não, não. Não quero amargar para sempre. Quero é ser a tia-avó louquinha, que vive com mil cães, mil dúvidas e muito amor.
Quero o coração batendo b-o-n-i-t-o, os olhos piscando felizes e o fel se dissolvendo. Simples assim. Portanto, por mais que a Senhora Ironia teime em fazer parte deste momento, prometo não ceder. E espero que tudo isso chegue logo, logo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Vai um pastelzinho aí?

Sim, tive um final de semana digno de pastelões Classe Z. Me senti o Dedé Santana. Principalmente quando fui almoçar no Sujinho, pedi umas 500 pimentas e, na hora de cortá-las, consegui - é preciso ter dom, moçada... - acertar o olho da garota que eu havia acabado de conhecer. Quase ceguei a menina. Isso me remeteu a uma cena muito bonita, também protagonizada por mim, é claro. Há dois anos, eu estava assistindo a um showzinho de rock, e o guitarrisca, todo-gracinha, tacou a palheta na platéia. Adivinhem onde ela foi parar. Isso mesmo! No meu olho.
Sê forte, Juliana. Sê forte para ser inteira. Você precisa. Você pode.

domingo, 29 de julho de 2007

...mas pode me chamar de Euclides

Quando um amigo diz que você tem "voz de Maria Zilda", algumas coisas merecem ser repensadas, certo? Façamos isso, então:
1. Pare de fumar fumando, pare de fumar dormindo, pare de fumar da maneira que bem entender. Mas pare.
2. Assuma-se. Diga que você mudou de sexo há pouco tempo e que, embora os seios pareçam naturais e a altura ajude, sua fonoaudióloga, que é malcomida, baranga e infeliz, se recusa a passar exercícios vocais que afinem a voz por meio de falsetes (aquela vaca invejosa diz que não é saudável).
3. Explique que quando a Zildinha passou por alguns problemas, tiveram de encontrar uma dublê de voz, e que, com isso, você ganhou rios e rios de dinheiro. Diga que, além dela, você também imita o Belchior, o Pereio, o Walmor Chagas, o Vereza e o Rubens de Falco.
4. Dê-lhe um murro bem dado.
5. Aceite e siga. Afinal, mais vale uma Zildinha na voz do que dez mil taquaras. Ou não?

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Análise sensatinha

“Às vezes, me sinto como se estivéssemos todos presos num filme. Sabemos nossas falas, onde caminhar, como atuar, só que não há um câmera. No entanto, não conseguimos sair do filme. E é um filme ruim." (Charles Bukowski)

Sim, o filme é ruim. A personagem principal beira o ridículo, e às vezes parece pateticamente caricata. O cenário também não ajuda. E a verba... ah, a verba...
Mas o que realmente importa é que filmes ruins costumam ter finais felizes. E a gente paga pra ver.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Full hand, só que de merda

Pois é, meus amiguinhos. Descobri que meu talento para a jogatina fugiu de mãos dadas com a dignidade. E eu, que não jogava pôquer há pelo menos uns cinco anos, não me lembrava dessa minha "inaptidão". A grande cagada é que encabeço, com orgulho, o clã dos pertencentes ao signo* menos desenvolvido do zodíaco e, por conta disso, amo uma competiçãozinha. Vamos ver quem berra mais alto? Opa! E lá está a Juliana soltando o gogó. Sempre foi assim. Mas ontem fui capaz de sacar o porquê dessa minha falta de tino. Simples: faltou Capitu e sobrou Cabiria. Não, meus amores, eu não sei dissimular. Eu sou a débil mental que recebe cartas ruins e faz cara de bunda. Na mesmíssima hora! E, se as coitadas vêm bonitas e certinhas, bato palmas, sorrio, dou cambalhotas. Praticamente uma foca. Negação, seu nome é Juliana.
Depois de ter perdido três cacifes em tempo recorde - e de perceber que as pessoas já começavam a demonstrar uma espécie de compaixão doentia pela minha pessoa -, resolvi beber cachaça. Afinal, as imagens de bêbado e perdedor sempre casaram muito bem. Só que, lá pela terceira dose, as coisas começaram a melhorar. Passei a falar mole, a piscar devagar, a manter aquela não-velocidade necessária para que eu deixasse de ser a pessoa mais transparente e crédula do mundo. Ou seja, consegui reaver dois cacifes, banquei a Capitu bebum, e ainda garanti o futuro da minha cirrose. Or-gu-lho.
A única decepção ocorreu hoje, já que acordei tão Cabiria quanto antes e com uma baita de uma azia.


*Pai do céu! Está comprovada a minha capacidade de enfiar o signo em todos os assuntos. "Eu só bebo assim porque sou ariana, e todo ariano é impulsivo";"Te chutei? Desculpa, é que eu sou ariana".

Amor-próprio?


Dominguinhos
Originally uploaded by coração circense

Essa, sim, é a cara de quem sabe o que está fazendo!


Uma iniciativa da Campanha Óculos, nem Pensar em homenagem a todas as mulheres que, mesmo beirando os 30, ainda não acreditam nos benefícios que armações e lentes podem trazer.

sábado, 16 de junho de 2007

No entanto, que espiritual você me dar uma rosa

-Oi. Posso sentar?
-À vontade.
-O que você tem?
-Como assim?
-Eu vejo que você não tá bem.
-Amarguei. Acontece.
-Oi?
-Amarguei.
-Triste?
-É... Amarguei. Já disse.
-Qual o seu signo?
-Áries com ascendente em virgem e lua em sagitário.
-Você já pensou em cuidar dos seus chacras?
-Hmmmmmmm... Não?
-Eu sou radiestesista.
-Legal. Eu sou amarga.
-Cuide dos seus chacras.
-Pode deixar.

Você sai depois de passar por uma semana trabalho-casa-trabalho. Até pensa em apelar para o disque-vida, mas o orgulho persiste. Você passa a noite criticando as pessoas que gastam 30 reais para ouvir uma banda tocando Chico Buarque, porque sabe que não são todos que têm 30 reais para gastar com uma banda que toca Chico Buarque. Você vê meninas de cor-de-rosa e plataforma. Vê pessoas tentando burlar as regras para não passar pela fila. Vê garotos vestidos de forma básica. Garotos que têm medo de errar. Você se dispõe a fingir que a vida é uma grande festa, mas prefere acreditar que não foi convidada. Você dá uma de recatada-sorridente e resolve se sentar em um cantinho seguro. Chega, então, um sujeito qualquer que decide salvar sua vida. Não, obrigada. Mas ele insiste. E se propõe - o mundo é dos altruístas! - a demonstrar que as coisas podem ser menos doídas. Você - o mundo é dos resignados! - deixa que ele fale. Afinal, deve haver algum palco invisível, e os holofotes só acendem quando há um público disposto a crer que existe um artista. Mas você sabe que amargou. Sua amiga também sabe. E é bem provável que, a essa altura, os vizinhos dela já tenham comentado algo a respeito. Que tal? Então é melhor que dancemos. Assim. Como se fosse a primavera.
Mas murchei. E não sou tanto.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

A mesma praça...

Hoje desenhei um reloginho em meu pulso direito. Reloginho de caneta Bic. Mas não adiantou. O amor não veio, a vida parece ter estacionado em algum lugar nem-um-pouco-turístico, e voltei a me sentir velha. Do tipo que, para liberar as energias, precisa criar as mais absurdas confusões. Cansei. Sem perceber, cansei.

domingo, 10 de junho de 2007

Se eu tivesse uma pistola...

Mulheres de voz aguda não deveriam beber. Não, não deveriam. Fui abençoada por Deus, já que a surdez parece ter vindo pra ficar, mas aquele timbre "iiiiiiiiiiihhh" me tira do sério. Ainda.
E a "galera" que se une pra comemorar o sábado, então? Me chuta, vai. Com força dessa vez. Porque agüentar gente bêbada berrando e sendo simpática, a essa altura da TPM, não dá. Eu sou gente bêbada e sei o que estou dizendo. Somos chatos, enchemos o saco alheio, passamos mal e dizemos absurdos. Gente... Não dá.
Mas o dia 12 está aí, e minha porção romântica avisa que há uma sementinha anticasal crescendo em meu peito. Triste, né? Se eu parar de ler as bulas a partir das Reações Adversas, passar a beber moderadamente e deixar de me enxergar como a tia velha que amargou de vez, é bem capaz que o sol volte a brilhar aqui dentro. Por enquanto, porém, peço a todos que me errem.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Eulália, prazer!

A gente passa tanto tempo fora de casa, que se esquece das "particularidades" pertencentes à rotina de um lar, sabe? Uma delas, por exemplo, é meu nome. E o problema dele é somente um: ele é fácil. Meu pai se chama Cláudio e teve mais sorte. Juliana vira Ju, e isso facilita - um bocado - a vida daqueles que querem pedir coisas. "Ju, vem ver isso", "Ju, pega lá aquele negócio", "Ju, cadê você?". Puta que pariu dez vezes. Faça o seguinte: tire o Ju da boca e enfie onde a rima soar melhor.

Saúde!

Sábado

Você passa duas horas seguidas na mesma posição, sem conseguir se mexer. Acha estranho, mas deixa pra lá. Você é uma criatura forte, orgulhosa e blablablá. Seus pais estão longe, seus amigos estão no bar, e você decide, então, se arrastar até o quarto. Pega cinco edredons, toma 20 remedinhos sortidos...

Domingo

...e acorda às 7h da manhã suando e tremendo. Seus pais chegam, descobrem que você está com febre e dizem que vai passar. Deitada, você percebe que está assistindo ao programa da Eliana. O controle remoto está a dois palmos, mas não há como alcançá-lo. Afinal, você não se move. A Eliana fala, fala, fala. O Xanddy fala também. E você agradece a Deus, já que eles poderiam estar cantando. O nariz não funciona e você cria uma minijacuzzi no travesseiro. Sua mãe entra no seu quarto dançando, de pijama e pantufas. Você acha que está tendo uma alucinação qualquer, vira o rosto - que gruda no tecido - e tenta dormir. Sua mãe entra novamente no seu quarto, dança mais um pouquinho e diz que está com depressão. Você xinga, expulsa aquele ser humano desfocado e se arrepende. Resmunga, toma mais alguns remedinhos sortidos e se odeia por notar que está se transformando em uma pessoa intolerante.

Segunda

Você liga para a sua chefe, diz "Bom Motivo" em vez de "Bom Retiro", solta uma gíria vergonhosa e é liberada do trabalho. Você, mesmo se sentindo culpada, dorme. E sonha com as revisões que deveria ter feito. Seu pai a acorda depois de algumas tentativas. Então você toma um Trimedal, descansa (...) mais algumas horinhas (...) e acorda renovada.
Resultado: a humanidade não presta, você não presta, mas o Trimedal... esse é parceiro.

(mais uma vez: não busquem, aqui, nada que vocês poderiam encontrar em outro lugar. A cultura não veio, a educação nunca deu as caras, e a vida segue seu rumo da mesma maneira)

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Eu te amo, Banespa

Sabe quando você tem todos os motivos do mundo pra acreditar que a sua segunda-feira será péssima? Pois eu estava me sentido assim. Porém, não mais que de repente, pensei: poxa, talvez seja o caso de dar um alô pro pessoal da Superlinha do Banespa, né? Afinal, aquele povo simpático, rápido e atencioso sempre me anima!
E foi o que fiz.
Papo vai, papo vem, e surgiu o assunto. Pra ser sincera, eu nem teria tocado nele, já que a conversa estava tão agradável...
Como o meu querido banco, no entanto, fez questão de bloquear meu cartão para, em seguida, enviar um telegrama supergracinha explicando que havia errado - errar é humano, né, moçadinha??? -, topei me abrir. Expliquei que não sinto falta de almoçar, comprar remédios etc. E quem sente? Gente fútil, oras. Pois não há nada mais bonito e libertador que viver de vento. E não há estômago que um pouco de planta, terra e pedra não consigam preencher. Assim como não há mal algum em passar um tempo sem ter de lidar com aquela papagaiada precisa e impessoal de senha, débito e afins. Gostoso mesmo é sacar um cheque, assinar, treinar a caligrafia e sentir aquele friozinho na barriga, imaginando que rumo a folha poderá tomar. Adoro!
Não é porque estou há uma semana sem cartão que vou sair do sério. Não é porque o banco me dá o prazer de conversar com 465 pessoas diferentes que vou me exaltar. Graças ao bom Deus, aprendi a aproveitar as pequenas delícias do dia-a-dia. E, pra ser sincera, quando todas aquelas vozes começam a dizer a mesmíssima coisa, sinto um lance muito bom. Relaxante. Praticamente um mantra. Desculpe, senhora. Desculpe, senhora. Desculpe, senhora...
Viram? Às vezes até me seguro, pois sou medrosa e não sei se o mundo está pronto pra me ver levitando por aí. E o nirvana, então? Tudo menos o nirvana!
Entendo essa postura bonita adotada pelo Banespa, admiro a atitude zen de seus funcionários, mas ainda não me sinto apta, de fato, a desfrutar de tantos benefícios.
Fica aqui, então, minha mais profunda gratidão.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Cu e medo: uma relação de afeto

Eu sou a mulher de 30. Eu sou quase aquela que se redime de seus defeitos e segue em frente. Já fui Lolita e Poliana Moça. Já fui várias. E só não fui Christiane F. porque recusei o papel (e olha que não foram poucas as vezes em que bateram à minha porta e imploraram para que eu revivesse a personagem). Na verdade, estou nos 29. Mas convenhamos: isso é burocracia, coisa de repartição. Pois tenho 30 desde os 25. E todos sabemos.
O que dói, no entanto, é a imagem que serei obrigada a espelhar. Nunca fui de idolatrar ninguém - mesmo que prefira manter o Fidel Castro completamente alheio às discussões de bar. Nunca. Até a semana passada. Até baixar a guarda e entrar na onda daqueles que não vivem sem Lost. Sim, é uma série. E - pior! - é norte-americana. Mas o mundo está escasso. E qualidade se transformou em artigo de luxo.
Passei tanto tempo aceitando historinhas previsíveis, diálogos imbecis e personagens planos, que fui obrigada a idolatrar aqueles roteiristas filhos-de-uma-puta.
Sou, portanto, medo puro. A mulher de 30 que idolatra Lost. A que passou a ser vegetariana por se sentir culpada. O que resta, meu bom Deus? Medo, medo e medo. E a única coisa que vem à mente é a possibilidade de um dia chegar ao absurdo de manter relações com nerds aficionados por Star Wars.

sábado, 12 de maio de 2007

Antivida

Vou lá assistir à terceira temporada de Lost e já volto. Pois é. Mais uma refém dessa merda. E refém das boas, eu diria. Afinal, ninguém passaria quatro dias da semana vendo as duas primeiras temporadas sem dormir e sem sair. Mas o Sayid me espera. Assim como o Sawyer, o Desmond, o Eko... E, para não ser acusada de misógina, a Danielle, a Kate e a Alex. Sem contar o urso polar, o cavalo preto, a praia, a selva, a caverna, as escotilhas etc.
Resultado: olhos esbugalhados e pansexualismo a rodo.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Da série "mulherices que não importam"

É, moçada, algumas coisas realmente não mudam. Eu, por exemplo. Pois sou a prova viva de que vai ano, vem ano, e ainda persiste aquela capacidade adolescente de criar listinhas imbecis sobre assuntos que, com um pouquinho de bom senso, seriam mantidos no mais completo (e fino) sigilo. Enfim...
Acontece que, como estou de férias, tenho o direito de matar meus dias da maneira que bem entender. E posso repensar a lista de homens para os quais até lavaria cuecas. Tanto posso, que repensei. E em primeiríssimo lugar está o David Coverdale. Sim, a tia-avó do rock. Aquela que daqui a alguns anos tomará chazinho das cinco na sala do Alice Cooper enquanto ambas tricotam meias de inverno. Ela mesma.
Ok, o David Coverdale está velho. Ok, ele tem uma filha da minha idade (o que, por si só, já é bastante comprometedor). Ok, sua pele está maracujando. Mas foda-se. Ele continua bom. Sem contar o vozeirão e todo aquele aparato brega-trash que tanto agrada aos olhos e aos corações de mulheres que nunca tiveram muito compromisso com a máxima de que "homem que é homem tem que ser homem". Ah, vá. Ele é uma tia-avó deliciosa.
Então é isso. Combinado. Lavo cuecas com gosto, e ainda corro o risco de ganhar meias.

domingo, 6 de maio de 2007

Impressões sobre a Virada Cultural

Sim, a idéia é necessária. E os artistas foram, em sua maioria, muito bem escolhidos. Parabéns pela iniciativa, São Paulo!
Porém, como sou a feliz proprietária de um egoísmo de primeira grandeza, sinto-me obrigada a narrar as minhas impressões:

1. Organização burra, já que as pessoas ficaram concentradas entre o Vale do Anhangabaú e a Praça da Sé.
2. O Tim Maia teria deixado o palco. Eco, eco, eco. Cadê a qualidade do som, meu bom Deus?
3. Vocês se lembram de quando São Paulo era segura e bem-freqüentada? Pois eu não. Nasci depois, e tenho certeza de que vocês também. Então, que tal deixar as crianças com os avós, os amigos, os vizinhos, os desconhecidos...?
4. Oi? Limpeza?
5. A campanha "Desodorante, nem Pensar" realmente é um sucesso. Todos aderiram!

Mas adorei, viu? Supimpa. Só não publicarei as fotos porque, além de terem roubado os remédios (m-e-d-o) da minha amiga, também levaram meu celular.

Algumas coisas não mudam

Momento Lair Ribeiro verborrágico? Talvez. Mas acontece que a vida não oferece aquilo que esperamos. Nunca. Ela tem seus próprios desvãos... E consideramos "normal" abdicar de certos prazeres pelo bem de outros. E consideramos "normal" desconstruir alguns sonhos só porque não fomos capazes de alcançá-los em tempo recorde. E consideramos "normal" que outras pessoas ditem regras - sejamos francos - estúpidas pelo simples fato de não se aceitarem. Sim, essas coisas acontecem. E tormam-se até mesmo corrriqueiras quando optamos por uma vida menos casa-trabalho-casa. Dar a cara a tapa nem sempre significa obter sucesso. E não sou melhor ou pior por ter encontrado, na transparência, minha forma de sobreviver. Mas sou pior por não ter feito dessa transparência algo real, visto que a mulher apresentada nem sempre é a que está aqui, escrevendo tudo isso.
Ainda não suporto notar que certas pessoas ditam normas quando não conseguem sustentá-las (mesmo que durante pouquíssimos segundos), mas cresci. Envelheci. E o mal-estar que eu experimentava a cada decepção sumiu.
Entenda: tenho pensado muito, e em muitas coisas. Pensado de tudo, imaginado o impossível. Mas aquela coisa que faz acreditar, parar, olhar para o céu e agradecer... Aquela eu não vejo. Não vejo mais. Tudo o que consigo enxergar é um azul. Enorme azul. E é nisso que penso sempre que me sento naquele banco para fumar às 10 da manhã. E não consigo parar de pensar. Não adianta. "E se, e se, e se..." Sempre assim. Imagino famílias inteiras de "e se": mamãe, papai, filhinhos. Todos caminhando em bando, como animais. Mas fico ali, sozinha. Pensando.

Porque o "começar" é sempre mais bonito

"Ao outro, a Borges, é que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, na contemplação do arco de um saguão e da cancela; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num trio de professores ou num dicionário biográfico. Agra­dam-me os relógios de areia, os mapas, a tipografia do século XVIII, as etimologias, o sabor do café e a prosa de Stevenson; o outro comunga dessas preferências, mas de um modo vaidoso que as converte em atribu­tos de um actor. Seria exagerado afirmar que a nossa relação é hostil; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa urdir a sua literatura, e essa literatura justifica-me. Não me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o bom já não seja de alguém, nem sequer do outro, mas da linguagem ou da tradição. Quanto ao mais, estou destinado a perder-me definitivamen­te, e só algum instante de mim poderá sobreviver no outro. Pouco a pouco vou-lhe cedendo tudo, ainda que me conste o seu perverso hábito de falsificar e magnificar. Espinosa entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra eternamente quer ser pedra, e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros do que em muitos outros ou no laborioso toque de uma viola. Há anos tratei de me livrar dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos agora são de Borges e terei de imaginar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e tudo perco, tudo é do esquecimento ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página. " ("Borges e Eu", de Jorge Luis Borges)